Castagneto, o nosso admirável pintor de marinhas, o incorrigível boêmio que dissipou o talento e a
vida com a mesma risonha facilidade do conde de Monte Cristo dissipando os seus milhões e com a
mesma natural indiferença do duque de Buckingham deixando cair as pérolas do manto na corte de
Luiz XIII, – Castagneto acaba de ter a mais fúlgida das consagrações post mortem.
Descobriu-se agora que há uma grande quantidade de marinhas, assinadas por esse pintor, e que
não passam de cópias, multiplicadas e nem sempre fiéis, dos seus quadros. Castagneto está sendo
"falsificado"!
Já o século passado mereceu o nome de "século das falsificações". O século atual, que apenas
começa a decorrer, há de prezar esse legado glorioso, e aperfeiçoar, na medida das suas
forças, a arte da fraude. Falsifica-se tudo: o que se come, o que se bebe, os tecidos com que
fazemos as nossas roupas, os remédios com que damos combate às nossas moléstias, os objetos de
arte com que encantamos os nossos olhos, a formosura das mulheres, a robustez dos homens, a
ingenuidade das crianças, – tudo! Até o ar, a luz e a água, – esses três dons gratuitos da
generosa Natureza, – não tardam a ser falsificados. E, daqui a pouco, um Edison
qualquer, falsificando a Vida, apresentar-nos-á um autômato perfeito, um boneco maravilhoso, que
respire, ande, coma, digira, durma, gesticule, fale, sinta, pense ... e ame! – e haverá
fábricas de homens artificiais, sans garantie du gouvernement...
Castagneto acaba de ter uma radiante consagração. Só se falsifica o que é
bom e o que vale dinheiro. Ninguém falsificou ainda a areia da praia, – que se obtém de graça;
e ainda não há mulher moça que embranqueça os cabelos e encha de rugas a face para parecer
velha, como ainda não há homem superior que esconda a inteligência para parecer estúpido;
mas, se algum dia a areia da praia, a velhice e a estupidez tiverem cotação no mercado, a areia
monazítica far-se-á areia comum, a adolescência disfarçar-se-á em caduquice, e o gênio desandará
a zurrar... Por ora, o que se falsifica é o que é bom, e o que vale dinheiro: é o ouro, é o
diamante, é a mocidade, é a beleza, é o talento, é a nota de banco, – e só está sujeito à
exploração da fraude o que representa um certo valor pecuniário ou moral. E é a fraude quem
está dando a Castagneto a glória que a legitimidade lhe negou...
Pobre Castagneto! Sem ambições e sem tristezas, desprezando igualmente o dinheiro e a fama, amando
apenas a natureza, a vida, a alegria e a arte, – pintando marinhas, como as aves cantam e como as
roseiras dão rosas, por uma necessidade criadora e fatal, – esse belo rapaz nunca se revoltou contra a
indiferença dos contemporâneos, porque foi sempre o primeiro a não dar valor às suas telas,
"aos seus botes", – como ele dizia na sua gíria pitoresca.
Não havia aspecto do grande mar inquieto que lhe não inspirasse uma composição; e o pincel ia
reproduzindo esses aspectos na tela, no papel, na tábua, em qualquer tampa de caixa de charutos,
em qualquer prancha de grosseiro caixão.
A execução era rápida e maravilhosa. O pincel e a espátula criavam ali, num relâmpago de gênio,
toda uma vasta massa de águas, animada de vida palpitante. Assim que ficava pronta, – ou quase
pronta, porque Castagneto não tolerava os sacrifícios do labor demorado, – a marinha saía logo
de suas mãos, passando para outras mãos, de amigos ou de indiferentes, vendida por qualquer
coisa, ou cedida de graça, com essa liberalidade simples e afetuosa, que só pode caber em coração
de boêmio ou ... de anjo.
Somente a morte veio interromper aquela prodigiosa produção incessante. O mar perdeu o seu melhor
amigo, e a limitada roda artística do Rio de Janeiro perdeu o mais interessante dos seus tipos de boêmio.
Esgotada a nascente das formosas telas, o legado do pintor começou a valorizar-se. Esse
valor cresceu tanto, que as telas verdadeiras já não bastavam para a procura, – e a fraude
encarregou-se de renovar o milagre bíblico da multiplicação dos pães, copiando e recopiando os
quadros em que fecundo pincel fixou a mobilidade das ondas largas, batidas de sol ou prateadas de
luar, em suave arquejo ou em fúria terrível, cheias das oscilações das velas e dos mastros.
Esta mesma Gazeta, noticiando anteontem a descoberta das falsificações, e consagrando
algumas linhas enternecidas à memória do pintor, perguntava: "Quando o amargurado Castagneto, que
passava dias sem comer, poderia pensar que o falsificariam assim, vendendo-o por um preço
extraordinário?".
Quando pensaria? nunca. Como pensaria no futuro quem nunca se preocupou
com o presente? Ainda agora, se pudesse ter conhecimento do que se passa na terra,
Castagneto não teria pesar nem indignação; levantaria os ombros, com aquele seu absoluto e
olímpico desdém pelas coisas da vida, e não se encolerizaria contra a fraude, nem se orgulharia
com a consagração. Apenas é possível que a sua infinita modéstia e o seu completo desinteresse
experimentassem algum espanto: "Como?! ... pois é verdade que os meus botes valem alguma
coisa?"...
Este exagerado progresso da mania de falsificar tem em si mesmo o seu corretivo. À
medida que cresce a perícia dos falsificadores, cresce também a desconfiança dos compradores.
Assim que se descobriu a falsidade da famosa tiara do Louvre, começou a pairar a suspeita
sobre a legitimidade das outras preciosidades do museu. E por todo o mundo anda acesa a batalha
entre a astúcia e a prudência, entre o gênio inventivo dos impostores e a cautelosa reserva
dos clientes.
Todos os gêneros, – de arte, de indústria, de alimentação, de vestuário, de
luxo, – estão desmoralizados. Os cambistas fazem tinir, repetidas vezes e demoradamente, sobre a
aba do balcão, as moedas que lhes oferecem; os prestamistas não adiantam um vintém sobre uma
jóia, antes de um demorado estudo; quem pede a um garçon de confeitaria um cálice de licor,
examina logo o rótulo da garrafa, com uma chispa de má vontade no olhar; quem contempla uma bela
senhora no verdor da mocidade, pergunta logo a si mesmo se aqueles cabelos e aqueles dentes não
saíram da oficina de um cabeleireiro perito ou de um hábil dentista; já nada, enfim, merece
confiança; e, para evitar o logro, toda a gente trata de pôr em contribuição o exercício dos
seus cinco sentidos desenvolvidos e apurados pela experiência e pela prevenção.
E, depois de trocada a moeda, de empenhada a jóia, de bebido o licor, de contemplada a beleza da
senhora, e de exercida a ação combinada do olfato, do tato, do ouvido, do paladar e da
vista, – ainda a gente fica com uma pequenina e impertinente pulga atrás da orelha e uma dúvida
importuna dentro da alma...
Para os falsificadores, isso não é cômodo: esse alarme
contínuo rouba-lhes a calma e envenena-lhes os louros da profissão. De maneira que, não obtendo
jamais uma perícia completa e infalível, e sentindo que o solo lhes falta debaixo dos pés,
os exploradores do crime arrepiam carreira, e voltam à pratica dos antigos dolos, que, com a
sua ingênua simplicidade, ainda podem dar resultados ótimos.
Vede o caso das estampilhas. Para falsificar treze mil contos de estampilhas, a quadrilha
seria forçada a adquirir maquinismos complicados, a tentar experiências dispendiosas, e a
comprometer na incerta aventura um vasto capital de dinheiro e de tempo.
Quando as estampilhas estivessem prontas, – como escapariam as suas imperfeições
à argúcia dos peritos? O microscópio revelaria o desvio de um micromilímetro em qualquer
linha de desenho: e é sabido que nunca a mão humana traçará dois desenhos perfeitamente
iguais, – como não há duas folhas perfeitamente iguais na copa da mesma árvore, nem dois cabelos
perfeitamente iguais na cabeça do mesmo homem. A aventura seria arriscada. Mais valia procurar
nos antigos e excelentes processos da ladroeira os lucros que o exercício das artes modernas não
podiam assegurar com infalível certeza.
Foi o que fizeram os avisados meliantes. Para que fabricar estampilhas falsas, – se aquela formosa
e opulenta Casa da Moeda, de portas tão largas e de tão fácil acesso, com sentinelas tão mansas e
cofres tão fracos, guardava dentro de si tantos milhões de estampilhas autênticas, legítimas,
confirmadas, conferidas, chanceladas, e verdadeiras como a própria Verdade?
Treze mil contos! É força confessar que a empresa foi audaz e brilhante... E, se pensarmos que grande
parte desse estoque de estampilhas já foi trocado por muito bom dinheiro, tão bom e tão
verdadeiro como elas; e, se pensarmos ainda que o pálio salvador do habeas-corpus,
bandeira-da-misericórdia de todas as espertezas, não deixará de cobrir os empreiteiros desse
colossal negócio, facilmente reconheceremos que andaram bem avisados os que preferiram lançar
mão de valores reais a fabricar valores suspeitos.
Não há falsificação que afinal não seja descoberta. E todas as malícias e todas as
sutilezas infernais da fraude acabam por ser apenas a glorificação do que é legítimo e puro.
Castagneto lucrou com a esperteza dos impostores. Os possuidores das suas marinhas
autênticas vão agora olhá-las e prezá-las com redobrado amor. Os bons vinhos só começam a
parecer verdadeiramente bons, quando cotejados com as zurrapas que pretendem concorrer com
eles; e as belas mulheres, de uma beleza simples e nua como a própria Natureza, só começam a
parecer verdadeiramente belas quando postas ao lado das belezas artificiais, devidas à
colaboração do carmim, da tintura circassiana, do khol, das dentaduras postiças e dos
chumaços de algodão.
OLAVO BILAC (1904)