Gazeta de Notícias

NOTAS E NOTÍCIAS, entre outros tópicos nesta seção do nº 289, ano XXX, 16 de outubro de 1903, p.1.

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"A TRUQUAGE ENTRE NÓS

Os nossos amadores de pintura já viviam numa incerteza contínua a respeito da autenticidade dos quadros estrangeiros, que lhes ofertavam. Quadros dos pintores antigos, do renascimento italiano e do XVIII século francês quando por cá aparecem, pode-se quase sempre asseverar que são falsificações. Quanto aos artistas do século passado é sabida a anedota daquele titular que tinha um Meissonier de vários palmos.

— Tenho ou não tenho uma fortuna? indagou ele a um amigo que voltava de Paris.

— Fortuna talvez tenhas, Meissonier é que não.

O titular zangou-se, mandou o quadro a Paris para que afirmassem a sua atenticidade e de lá o recebeu dois meses depois com a resposta: cópia reles. O Meissonier falso custara-lhe quinze contos. No tempo do encilhamento, quando toda gente dava-se ao luxo de ter a sua galeria, os dilettanti, última fornada, pelas fotografias dos catálogos mandavam vir os quadros de sucesso nos salões dos Campos Elíseos. Um pintor, que cá tinha estado, ganhou uma fortuna copiando-os e exportando as cópias como quadros autênticos.

Essas cópias, porém, essas falsificações com que a Europa embaraça os japonais da América, são naturalíssimas, quando em Paris engana-se o Louvre e os Estados Unidos são o ludibrio do artifício de todos os países artistas.

De uma coisa, porém, nós podíamos estar certos: as telas dos nossos pintores eram verdadeiras. Pois nem isso, agora! A truquage apanhou nas suas malhas os nossos pintores, vendem-se por aí telas do Castagneto que nunca foram do seu pincel, quadros do ator da Saudade, de que ele pintou um único exemplar e existem agora edições enormes…

As galerias de pintura guardam com carinho, obras que nunca foram desses pintores.

Digam depois que a arte não dá neste país, onde os artistas chegaram ao cúmulo da celebridade, à truquage! Quando porém o amargurado Castagneto, que passava dias sem ter de comer, poderia pensar que o copiariam, o falsificariam, vendendo-o por um preço extraordinário?"